domingo, 15 de agosto de 2010

SERÁ QUE CRISTO AGUENTARIA SER PROFESSOR HOJE EM DIA?



   Hoje reproduzo um texto muito bem humorado, gentilmente enviado pelo Prof. Alex Werner Von Sidow que, acredito, deveria ser distribuído a todos os docentes antes dos Conselhos de Classe,COPAS (não é o naipe do baralho, nem as antessalas das cozinhas...e também jamais soube o significa mais esta insólita silgla), e demais runiões DE UTILIDADE PEDAGÓGICA DUVIDOSA as quais sou instado a comparecer! Com o perdão do abuso anglicista: "ENJOY!"


O Sermão da montanha (*versão para educadores*)

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem.

Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens.

Tomando a palavra, disse-lhes:

- “Em verdade, em verdade vos digo:

Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.

Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

Felizes os misericordiosos, porque eles...”

Pedro o interrompeu:

- Mestre, vamos ter que saber isso de cor?

André perguntou:

- É pra copiar?

Filipe lamentou-se:

- Esqueci meu papiro!

Bartolomeu quis saber:

- Vai cair na prova?

João levantou a mão:

- Posso ir ao banheiro?

Judas Iscariotes resmungou:

- O que é que a gente vai ganhar com isso?

Judas Tadeu defendeu-se:

- Foi o outro Judas que perguntou!

Tomé questionou:

- Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?

Tiago Maior indagou:

- Vai valer nota?

Tiago Menor reclamou:

- Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.

Simão Zelote gritou, nervoso:

- Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?

Mateus queixou-se:

- Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!


Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:

- Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para o levantamento dos conhecimentos prévios?

Caifás emendou:

- Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais?

Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus:

- Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor titular...


(Dennis Hamburger)


Aos quinze dias do mês de agosto, do ano da Graça de 2010, no Estado da Guanabara.
 
Prof. Haroldo Lemos.

terça-feira, 27 de julho de 2010

MAGISTÉRIO NÃO É SACERDÓCIO !


O textos a seguir referem-se a correspondência eletrônica havida entre mim e o Prof. Alex Von Sidow, ensejada por texto revelador de autoria da Sra. Ana d'Angelo. São eles:


BOA ESCOLA SÓ SE FAZ COM BONS PROFESORES. ELES DEVERIAM SER NATA DO FUNCIONALISMO, MAS RECEBEM COMO "BARNABÉS".
A que ponto chegou o ensino público no Brasil, nos últimos lugares do ENEM. É fato que vem agonizando há tempos. Mas não deveria ser assim. Afinal, o Brasil entrou no século XXI mais forte economicamente, mais respeitado no exterior, com instituições (com algumas exceções como o Congresso e o Judiciário) mais evoluídas.É um paradoxo que o ensino público esteja na contramão do desenvolvimento brasileiro.

Isso se deve basicamente a um fato: os baixos salários dos professores que afastaram os bons profissionais. Os de excelência que ainda resistem estão com o estímulo minguando a cada dia. Difícil se dedicar a um sistema que não é valorizado e que acaba deixando de atrair as melhores cabeças para pagar salários bem menores que outras carreiras que exigem menos dedicação e esforço. Eles tinham que ser a nata do funcionalismo, mas estão na base da pirâmide.
Estudei em escola pública, do jardim de infância à universidade. Tudo o que conquistei na vida devo à minha mãe, que deu um duro danado (e carrega as marcas físicas dessa vida difícil), e aos contribuintes brasileiros. Por isso, sempre foi doloroso, para mim, assistir à decadência da qualidade do ensino público. Na minha cidade natal, São João Del Rei, o Colégio Estadual Cônego Osvaldo Lustosa, que ficava num morro, era simplesmente o melhor e mais "apertado" da cidade. A prova de acesso era difícil. Era quase um vestibular. Os melhores professores estavam lá. Era "status" dar aula no Estadual, como era chamado. Faz tempo isso, reconheço.

Enquanto o país preferir pagar salários altos aos burocratas carregadores de papel e menos aos professores, continuaremos a assistir à supremacia da desigualdade e das injustiças. (os negritos são meus)

(Ana D'Angelo, ipsis litteris; repassado pelo Prof. Alex Von Sidow)


Caríssimo Alex

Quanto ao Ensino Público, sobremodo o estadual, este começou a ser "abandonado" pela classe média a partir do "milagre brasileiro" na década de 1970. Toda a elite e os aspirantes à mesma matriculavam seus filhos nos caríssimos e competentíssimos (desde sempre) colégios confessionais (S. Zacarias, S. Bento, Sto. Ignácio, Sto. Agostinho, Marista São José etc.) e naqueles de tradição estrangeira, a saber: Liceu Franco-Brasileiro (quando era vinculado ao Consulado Francês), Colégio Cruzeiro (dos alemães), St. Patrick (dos ingleses) e um número expressivo dos chamados "colégios de freiras", com destaque para: Regina Coeli e Sta. Marcelina.


Destes citados, grande parte continua prestando serviços de ótima qualidade e com resultados mais do que satisfatórios, isto é, colocar os filhos das elites nas Universidades Públicas. Esta inversão de valores (o "público" como objetivo e propriedade de poucos que advêm do "privado") foi o que ensejou, em grande parte, a política das cotas raciais e sociais. Mas essa é outra discussão.

O fato é que todos esses colégios foram prudentes em obter de volta os professores ditos "comunistas", banidos pela ditadura militar (ou mantiveram-nos...sempre que lhes foi possível) e pagar excelentes salários, além de terem à mão condições ótimas de trabalho. Falo dos “multimeios” e infra-estrutura, modo geral. Este último item abrange a importantíssima e tão decantada “valorização do profissional” ou “promoção humana”, tanto faz. Refiro-me aos benefícios, diretos e indiretos (planos de saúde, adiantamentos salariais, colônias de férias, convênios institucionais para aperfeiçoamento acadêmico etc.) ainda mantidos por boa parte dessas casas de Educação.

À guisa de ilustração, aquele que fora o “Colégio Padrão” até o final da década de 1960, o nosso vetusto Colégio Pedro II, encontrava-se em desgraça. Aí não há como deixar de citar o desastre que foi a administração do Prof. Wandick Londres da Nóbrega que quase fez desmoronar a Velha Casa, salva pelo Ministro Raymundo Moniz de Aragão que exonerou Wandick e nomeou o saudoso Prof. Tito Urbano da Silveira para a Diretoria Geral que, gostem alguns, ou não, soergueu a Instituição.

Também vale recordar que da segunda metade da década de 1960 até o final de 1970 , as escolas técnicas eram consideradas pelas elites (tanto as verdadeiras como as que deviam aos bancos), “antros de comunistas”, reduto de operários etc. Eram instituições de “segunda classe” cujos serviços não eram de interesse (imediato) da classe média. Seus rebentos mereciam algo muito melhor e que lhes assegurassem diplomas de universidades públicas, sempre que possível.

Na esteira desses acontecimentos proliferaram os “cursinhos” pré-vestibulares que, de modo inteligente, arregimentaram excelentes professores, alguns ex-torturados que haviam perdido seus cargos públicos e empregos, a exemplo do brilhante historiador alagoano, Prof. Manoel Maurício de Albuquerque, de quem tive a honra e o prazer de ser aluno.

Os salários desses mestres com cargas horárias que chegavam a 80 horas semanais (domingo a domingo) chegavam a ultrapassar o valor de um carro popular da época...o fusca. Ou seja, ganhava-se um volkswagen por mês.

Neste cenário, os poderes executivo e legislativo sentiram-se absolutamente a cavaleiro para reduzir as verbas do ensino público. Não é de hoje que os governos, sobretudo estaduais e municipais, ao falarem em corte de gastos, caem de dentes e garras em cima da Educação e da Saúde.

A deterioração dos níveis salariais dos docentes públicos atingiu seu auge nos alvores dos anos 1980, tanto no âmbito do Estado como no Federal. Toda esta década foi eivada de movimentos políticos (criação de sindicatos e associações de docentes públicos e servidores administrativos, graças ao arrefecimento ditatorial) que buscaram reverter os danos salariais provocados por sucessivas e infelizes atuações dos governos em todos os níveis. Foi uma enxurrada de ações judiciais coletivas e individuais, muitas delas até hoje sem trânsito em julgado, isto é, sem conclusão.


Em suma, estamos, desde 1984, “correndo atrás” de nossos prejuízos, numa exaustiva trilha sigmoide que só tem nos desgastado intelectual e fisicamente. Penso que “jamais se viu antes na história deste País”, nos termos do Sr. Presidente da República, uma classe de profissionais, juntamente com os médicos, tão depauperada quanto a dos professores. Abundam as tendinites, hipertensões, próteses cardiovasculares, quadros de depressão e de angústia que se retroalimentam num cenário que, seguramente, relaciona-se de forma direta com a insegurança financeira.

Basta o correr dos olhos em muitos contra-cheques de professores para horrorizar-se com a quantidade de descontos obrigatórios e outros, tais como os empréstimos consignados, para se ter idéia do quão reféns estão esses profissionais da agiotagem institucionalizada.

Por derradeiro, pois temo já me tornar enfadonho, o tão proclamado “ensino de qualidade” (vício léxico que substitui a locução “ensino de boa qualidade”) está, sim, de modo inexorável, ligado ao valor da remuneração. Esse “papo-furado” de “sacerdócio do magistério” só teve sentido nos tempos em que éramos nivelados com magistrados e generais-de-divisão. Mas isso foi há muito tempo!

PS: outro entrave à boa educação pública é a dificuldade absurda de se obter recursos financeiros e adquirir insumos em face da tal lei de licitações. Some-se a isso a dificuldade em obter autorização para a realização de concursos públicos para provimento de cargos, tendo-se que lançar mão de expediente maldito, o dos contratos temporários que incrementam ainda mais o afastamento dos bons professores. Mas isso é tema para outra conversa.


Receba um fraternal abraço deste colega que muito o estima e subscreve-se, com muita atenção,


Rio de Janeiro, 27 de julho de 2010.


Prof. Haroldo Lemos.