sábado, 29 de outubro de 2011

A ESPIRAL DA INSENSATEZ (por Silvio Caccia Bava)

    Silvio Caccia Bava é editor do jornal "Le Monde Diplomatique Brasil" e coordenador geral do Instituto Pólis e, nesta análise da conjuntura mundial, demomstra uma excepcional capacidade de síntese dos fatos mais momentosos. É leitura obrigatória para todos os queiram compreender, ou, ao menos, tentar, o que se passa mundo afora e "mundo adentro", isto é, aqui, nas Terras de Santa Maria.

   O texto reproduzido abaixo, constitui seu editorial para o periódico "Le Monde Diplomatique Brasil", publicado no nº 51, de outubro de 2011, sob o título "A Espiral da Insensatez". É o que segue:

   "Agora não é mais uma bolha que explode. É uma crise sistêmica e planetária do modelo de capitalismo financeirizado que domina o mundo. Ninguém escapa dela.



   Tal como grandes animais predadores, as grandes corporações financeiras internacionais estão devastando o tecido social europeu, criando uma zona de crescente instabilidade política e colocando em risco a economia global, mas também estão criando espaços para sua contestação.


   Desde meados dos anos 1980 essas grandes corporações financeiras internacionais se fortalecem. Hoje elas controlam os governos e os organismos multilaterais, como o FMI, o Banco Mundial e o Banco Central Europeu. Isso ficou claro na crise de 2007/2008, quando um grupo dos mais importantes executivos, reunido com o FMI, impôs aos governos nacionais que se endividassem para salvar os grandes bancos privados. E os governos se endividaram muito além de sua capacidade.


   Esse endividamento golpeou o governo da Irlanda, da Grécia, de Portugal, da Espanha e da Itália, e coloca sob ameaça mesmo a França e a Inglaterra. E para salvar esses países do default(calote) da dívida pública, novos pacotes de volumosos empréstimos foram mobilizados, com uma importante participação das grandes corporações financeiras internacionais, que viram nessas operações, com taxas de juros recordes, a possibilidade de grandes ganhos.


   A crise, no entanto, recrudesce. A receita amarga das brutais políticas nacionais de ajuste, isto é, os cortes no orçamento público, nos salários, nas aposentadorias e nas políticas sociais não são suficientes para que esses governos paguem o que devem. E assim vai se desenhando uma espiral descendente cujo horizonte é mais recessão.


   Quando esses grandes bancos privados perceberam o novo risco de defaulte viram o valor de suas ações despencar, mobilizaram outra vez os governos e a União Europeia, para garantir não só processos de recapitalização, mas também seus investimentos em bônus do tesouro de vários países. Numa conjuntura tão delicada, os conflitos de interesses no seio da União Europeia estão impedindo até o momento políticas regionais articuladas de enfrentamento da crise. Esse imobilismo faz que os riscos de desastre cresçam.


   O que está em questão é o poder dessas grandes corporações financeiras internacionais. Se elas continuarem governando o mundo, a crise só se aprofundará. Abre-se então um novo campo de debate. Como superar essa crise?


   O que era inimaginável poucos anos atrás está sendo discutido como uma das opções: a estatização do sistema financeiro privado − algo que a Índia já fez há mais de dez anos.


   Aliás, vale lembrar que tanto a Índia como o Brasil (que tem 48% de seu sistema financeiro nas mãos de bancos públicos), pela importância do sistema financeiro público, puderam tomar medidas coordenadas de políticas anticíclicas e assim reduzir o impacto da crise de 2007/2008 sobre sua economia e sociedade.


   Uma alternativa em discussão é a proibição da operação com derivativos: trata-se de impedir o sistema financeiro de especular e operar sem o necessário lastro de riqueza. Mas essa é uma política que necessita de coordenação internacional, e os atuais organismos de regulação internacional estão capturados pelos donos do poder.


   Também volta como proposta a auditoria das dívidas públicas, as contraídas pelos governos. Experiências recentes, como a do Equador, resultaram em substancial redução de seu valor.


   Os novos movimentos sociais impulsionados pela juventude na Espanha, na Grécia e no Chile vão além. Eles também querem a estatização dos bancos privados, mas trazem outras propostas: o fim das heranças e o salário-base de 30 mil euros anuais para todos, empregados e desempregados. No Chile, os estudantes não estão interessados em negociar com o Congresso; querem um plebiscito para definir que educação não pode ser objeto de lucro. Tem de ser pública, universal, gratuita e de qualidade.


   Enquanto essas propostas ainda não ganham corpo, os grandes bancos buscam criar soluções para garantir sua própria sobrevivência. Para eles, trata-se de corrigir falhas do sistema, não de questioná-lo.


   As propostas vão desde o patético apelo do bilionário Warren Buffet − de que os ricos precisam pagar mais impostos, com o que as grandes corporações discordam plenamente, e o Tea Party, nos Estados Unidos, está igualmente em radical discordância − até a versão da Taxa Tobin para os ricos, uma taxa sobre as transações financeiras, cujos recursos seriam destinados a um fundo europeu de estabilização para a recapitalização de bancos em dificuldades.


   É da natureza do bicho. As grandes corporações não olham para o interesse público; elas têm como objetivo o máximo lucro. E, se os governos não foram capazes de impor essa dimensão de regulação pública à sua atuação, é porque foram capturados por ela. Isso compromete o sistema político e a democracia.


   Os governos, com as políticas de ajuste, passaram a estar contra as maiorias. E, se o sistema político está controlado, sem condições de ser a arena pública da disputa e dos conflitos, da negociação, então as tensões ganham as ruas. A crise sistêmica é também a crise do sistema político.


   Silvio Caccia Bava."

   Numa palavra...irretocável!

   Abraço a todos.

   Aos 29 dias do outubro de 2011, no saudoso Estado da Guanabara.

   Prof. Dr. Haroldo Nobre Lemos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A GREVE NÃO TERMINARÁ NA SEMANA QUE INICIA HOJE !

GREVE: ERREI TODAS AS MINHAS ESPERANÇOSAS  PREVISÕES, ATÉ O MOMENTO, MAS NÃO AS ANÁLISES...É O QUE SEGUE ABAIXO.

   Entrar em greve é mais fácil do que sair, todo mundo sabe disso. De fato, quando temos diversas entidades representativas envolvidas num processo de negociações políticas--caso de uma greve, p.ex.—a coisa toda se transforma num formidável jogo de xadrez, fato que para alguns chega a ser até estimulante do ponto de vista psicológico, mas que traz inequívocos prejuízos aos recebedores dos serviços.

   E são estes prejuízos que, em princípio, devem (ou deveriam) forçar o patrão (dona Dilma, no caso) a negociar através de seus prepostos. Nesse caso são: o ministro da Educação (MEC), Dr. Fernando Haddad e a ministra de Planejamento Orçamento e Gestão, Dra. Miriam Belchior que, por sua vez, tem falado através de seu secretário de Recursos Humanos, Dr. Duvanier Paiva Ferreira.

PARA ENTENDER MELHOR

   A pauta de reivindicações é vastíssima, o que, em meu humilde entendimento, dificulta muito a reunião de todos os interesses de professores e funcionários. As vezes coincidem , outras vezes, não. Contudo, nos pontos em que há consenso essa unificação fica óbvia. Cito apenas um e gravíssimo: o perigo que significam os Projetos de Lei (PL) que estão no Congresso Nacional e que podem resultar em congelamento de salários por até 10 anos, a exemplo do que fez o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele os congelou durante os oito anos de seus dois mandatos e Lula prosseguiu o congelamento por mais dois anos, totalizando dez.

De certo, houve perdas nas recomposições salariais que se seguiram e que são agravadas, agora, pela inflação crescente.


 QUEM FALA POR NÓS junto ao governo são as entidades representativas. E quem são elas?

No âmbito do CPII: a Associação de Docentes do Colégio Pedro II (ADCPII) e o Sindicato dos Servidores do Colégio Pedro II (SINDSCOPE), cuja maior parte de associados é composta de servidores administrativos.


   Em âmbito nacional os “atores” são: Federação de Sindicatos de Trabalhadores das Universidades Brasileiras (FASUBRA), Sindicado Nacional de Docentes de Ensino Superior (ANDES-SN), Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (SINASEFE), Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições de Ensino Superior (ANDIFES), Fórum de Professores das Instituições Federais de Ensino Superior (PROIFES), Central Única de Trabalhadores (CUT), Federação dos Sindicatos de Trabalhadores das Universidades Brasileiras (FASUBRA) e, "last, but not least", a Central Sindical e Popular (CONLUTAS).

QUEM ESTÁ DO LADO DO GOVERNO DILMA NESTA GREVE? 

R: ANDES, PROIFES  e CUT.

QUEM ESTÁ A FAVOR DOS GREVISTAS?

R: SINASEFE, FASUBRA e CONLUTAS

OBS: há algumas dissidências em todas essas entidades, o que faz parte do jogo democrático.

O QUE SE TEM HOJE, DE FATO?

   Só nas últimas duas semanas é que se conseguiu avançar, de facto, junto ao Poder Executivo, leia-se dona Dilma, que, a princípio, sequer enviava seus prepostos de primeiro escalão, isto é, os ministros envolvidos, para dialogar. Logo, não faria sentido recuar nesse momento.

CONCLUSÃO:  A GREVE NÃO TERMINARÁ NA SEMANA QUE INICIA HOJE !


   OBSERVAÇÃO IMPORTANTE.

Em todo movimento político há que se ter sensibilidade para o momento de deflagração do mesmo. No presente caso, houve entendimento geral que ESTE é o momento, haja vista o cenário político que está mais ou menos assim: Dona Dilma - tem maioria no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (Lula indicou oito ministros para o STF e dona Dilma está em vias de indicar mais um, para a vaga da Ministra Helen Gracie...no total, eles são onze!....façam as contas!); Dr. Fernando Haddad concorrerá, ano que vem, à Prefeitura da Cidade de São Paulo.

   A Advocacia Geral da União (AGU), quer dizer, os advogados do governo, correm em paralelo tentando obter o corte do ponto dos grevistas como forma de pressão. Jogo sujíssimo, mas o fazem ex officio (por obrigação do serviço).

   Então, "a hora é esta!", segundo os líderes do movimento.

   Com muita preocupação, subscrevo-me,

   Em 19 de setembro de 2011.

   Prof. Dr. Haroldo Nobre lemos.